ODS como estratégia de gestão: o desafio da liderança pública local
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU completaram mais de uma década com um balanço que não permite otimismo. No Brasil, muitos municípios não têm conhecimento e nem iniciaram a estruturação de políticas públicas alinhadas à Agenda 2030 — e entre os que iniciaram, poucos conseguiram transformar diagnóstico em ação permanente.
Os desafios para a implementação desta Agenda não decorrem apenas de limitações técnicas. Na maioria dos casos, estão relacionados com o conhecimento, capacidade de liderança, coordenação institucional e a vontade de fazer acontecer considerando os três princípios que se entrelaçam para essa transformação:
- Pessoas: porque nenhum desenvolvimento faz sentido se não coloca o ser humano no centro.
- Paz: porque não há prosperidade onde há conflito.
- Parceria: porque nenhum dos grandes desafios do nosso tempo será resolvido isoladamente.
O legado do RLV de Ipanema
A elaboração do Relatório Local Voluntário (RLV) do município de Ipanema (MG), conduzida com o apoio técnico do Instituto Educa Cidades, representa um exemplo de como a Agenda 2030 pode ser incorporada à gestão pública local. O documento, apresentado neste ano no Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, na sede da ONU, em Nova York, foi além da produção de um relatório: incluiu a construção de um plano para atração de investimentos e a consolidação de um espaço institucional permanente voltado à articulação, ao monitoramento e à promoção de iniciativas alinhadas ao desenvolvimento sustentável do município, além de um projeto ousado para atração de investimentos para o município.
O RLV de Ipanema é um ponto de partida, que só foi possível com a liderança municipal engajada, além de todos os servidores e população que participaram efetivamente desta construção. Essa diferença de abordagem distingue municípios que tratam a sustentabilidade apenas como uma pauta institucional daqueles que a incorporam como estratégia permanente de gestão pública.
A experiência de Ipanema demonstra que, quando há liderança, planejamento e articulação institucional, os ODS deixam de ser apenas uma agenda internacional e passam a orientar decisões concretas de gestão e o desenvolvimento das cidades.
O papel das instituições que educam territórios
A sustentabilidade não se implementa por decreto nem se sustenta com ações pontuais. Ela exige educação continuada — de gestores públicos, lideranças comunitárias, servidores, empresários e sociedade civil.
Quando instituições públicas e privadas incorporam os ODS como eixo estruturante da gestão, e não apenas como uma exigência de conformidade, três movimentos tendem a ocorrer:
- Planejamento orientado por dados — os indicadores dos ODS deixam de ser figurativos e passam a basear a alocação de recursos e a formulação de políticas públicas eficientes.
- Articulação intersetorial — secretarias, empresas e organizações que antes atuavam de forma isolada passam a construir soluções integradas.
- Prestação de contas contínua — a transparência deixa de ser um exercício anual de relatório e se torna um ciclo permanente de monitoramento e correção de rumos.
Esses movimentos fortalecem a capacidade institucional dos municípios e criam condições para que as políticas públicas sejam mais integradas, transparentes e orientadas por resultados. Nesse contexto, o desenvolvimento sustentável deixa de ser um objetivo abstrato e passa a orientar decisões cotidianas da gestão.
Essa é a perspectiva de uma cidade que educa: um território onde cada política pública, cada parceria e cada projeto carrega intencionalidade formativa para o crescimento e desenvolvimento do município.
Líderes que compreendem os ODS para além do discurso conseguem mobilizar recursos com mais eficiência, engajar a sociedade com mais credibilidade, atrair investimentos e tomar decisões de longo prazo com mais coragem. Sabem que o custo da inação é sempre maior que o investimento necessário.
No contexto da educação pública, essa preparação torna-se ainda mais urgente. As redes de ensino formam não apenas estudantes, mas também futuros tomadores de decisão. Educar para a sustentabilidade significa preparar lideranças que atuarão à frente de prefeituras, secretarias, empresas e organizações com capacidade de transformar a realidade dos municípios brasileiros. Essa perspectiva orienta a atuação do Instituto Educa Cidades, que apoia municípios na estruturação de políticas públicas, no fortalecimento da gestão educacional, construção do RLV e na implementação de estratégias alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Um convite à ação
A Agenda 2030 se aproxima de seu horizonte, e o momento exige mais que diagnósticos. Exige institucionalização de compromissos e ações. Que cada liderança possa assumir o seu papel com responsabilidade e vontade verdadeira de promover mudanças significativas, porque o desenvolvimento sustentável não será construído apenas por intenções. Ele será construído por lideranças preparadas, cidades e instituições comprometidas com o desenvolvimento, transformação e educação.
À medida que o ano de 2030 se aproxima, o maior desafio deixa de ser compreender os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e passa a ser incorporá-los de forma permanente às decisões públicas. Municípios que fortalecem sua capacidade de planejamento, monitoramento e articulação estarão mais preparados para responder aos desafios do presente e construir territórios mais resilientes, inclusivos e sustentáveis.
Renata Lemos
Consultora de sustentabilidade do Educa Cidades e membro do Comitê Executivo Movimento Minas 2032