Cuidar de quem cuida: um retrato da saúde mental na educação brasileira
Você já parou para pensar quantas vezes nos últimos meses, naqueles dias mais agitados, seja pela demanda de trabalho doméstico, profissional ou até mesmo sem nenhuma demanda específica, quando tudo parecia ter se misturado, seu coração disparou, o peito apertou, uma falta de ar momentânea não te deixou respirar, sua visão ficou um pouco mais escura e, por fim, veio uma sensação de tontura que te fez sentar por um momento?Muito provavelmente esse foi o instante em que seu corpo pediu um tempo, alguns minutos para respirar. Era isso, respirar. E lá estava você de volta à sua rotina.
Quantas vezes passamos por essas situações? Quantas vezes julgamos como fatos isolados? “Isso aconteceu porque foi o dia em que não consegui tempo para almoçar. O outro dia foi por conta do café da manhã que tomei às pressas, sem nem conseguir sentar.” Para todos eles você buscou um motivo específico, mas, de repente, os episódios isolados tornaram-se constantes no seu dia a dia. Quando se deu conta, a vida passou a operar em modo de urgência. Tudo passou a ser para ontem e os dias não passavam mais; eles voavam.
Mas quando foi mesmo que tudo isso começou?
Talvez você nem se lembre quando tudo isso começou; realmente não notou quando foi envolvida por essa grande espiral que fez seus dias, semanas e meses tornarem-se uma coisa só, emendados num eterno devir que nunca tomou forma, apenas seguiu se movimentando. E o que acontece agora? Vive com essa sensação de estar, na maioria das vezes, atrasada. Então, a solução parece ser correr, se adiantar ao que deve ser entregue, se colocar um dia à frente, estar literalmente no futuro. Quem sabe assim a falta de tempo simplesmente acabe e você esteja em dia, com você e com tudo ao seu redor, quem sabe assim você volte a se sentir presente no presente.
Saúde mental nas escolas
Pesquisas recentes no Brasil indicam que, há algum tempo, seguimos para uma grave e crescente crise na saúde mental dos profissionais da educação, com altos índices de exaustão, atingindo mais de 84% dos profissionais.
Mas o que realmente significa chegar à exaustão? O dia em que seu corpo para, pode significar o dia em que você realmente ultrapassou todos os seus limites! Mas será que você em algum momento pensou quais eram os seus limites? O quanto você se conhecia para saber que precisava mudar de rota? Será que se conhecer melhor não poderia ajudar a criar estratégias e não seguir em direção a esse penhasco? O que estava fazendo para cuidar e priorizar a sua saúde física, mental e emocional?
Ambientes escolares enfrentam cada vez mais o aumento constante do número de afastamentos de profissionais por motivos de ansiedade e burnout, muitos deles piorados pela pandemia e endossados todos os dias pelos desafios estruturais enfrentados, como a desvalorização profissional, a sobrecarga de trabalho, as turmas lotadas e o alto índice de violência escolar. É urgente a necessidade de apoio e a valorização profissional, conforme mostram muitos estudos. Enquanto isso, na prática, o cenário se torna cada vez mais catastrófico.
Uma pesquisa do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática e Estatística da USP, em conjunto com o Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo (Aprofem), constatou que mais de 60% dos professores municipais da cidade de São Paulo se afastaram por problemas de saúde no último ano e que mais de 80% tiveram algum transtorno mental. Mas o que exatamente está relacionado aos transtornos mentais citados nessa pesquisa? 37% dos profissionais afirmaram ter ansiedade; 36% relataram ansiedade e depressão simultaneamente; 7% relataram burnout e 4% sofrem de depressão.
Mas afinal, quais são realmente os impactos individuais, sociais e econômicos desses números? Difícil, mas não é impossível descrevê-los e dimensioná-los, basta um tempo para organizar as ideias e termos um retrato dessa sociedade cada vez mais doente, física e mentalmente, que encaramos todos os dias.
Mas acredite, é possível revertermos essa situação e mudarmos este cenário. É possível construirmos juntos alternativas educativas e novos caminhos para uma atuação mais consciente e coletiva. Juntos podemos experimentar novas e importantes possibilidades de escuta, atenção, respeito às vivências mais significativas, busca por resoluções de conflitos com mais generosidade e empatia, permeadas por falas mais amorosas. Quem sabe assim, possamos despertar e trazer à tona o melhor de cada ser humano neste processo de cura e reorganização das comunidades que, infelizmente, já foram afetadas por essas situações e, principalmente, prevenir e permitir que outras pessoas em diferentes locais possam reescrever e redirecionar suas rotas por novos caminhos.
Edna Borges
Jornalista e formadora de educadores no âmbito socioemocional