Laboratórios ODS: um caminho de internacionalização para pequenas e médias cidades

A internacionalização de cidades não é um fenômeno recente. Desde o início do século XX, governos locais estabelecem relações próprias com cidades, organismos e instituições estrangeiras. Essas relações envolvem intercâmbio de experiências, cooperação técnica, participação em redes internacionais, promoção territorial e construção de agendas comuns.

Durante muito tempo, o debate sobre internacionalização urbana esteve concentrado nas grandes metrópoles e nas chamadas cidades globais. Esse enfoque associava a presença internacional à capacidade econômica, à infraestrutura, ao fluxo de investimentos e à existência de estruturas administrativas especializadas. O fenômeno, contudo, também abrange cidades médias e pequenos municípios. Balbim (2021) demonstra que capitais regionais, cidades médias e pequenas participam de redes internacionais e constroem formas próprias de inserção no cenário global.

A participação internacional de uma cidade costuma depender de condições institucionais. Entre elas estão a existência de uma área responsável pelas relações internacionais, uma equipe técnica qualificada, orçamento próprio, continuidade administrativa e contatos prévios com atores estrangeiros. Grandes cidades conseguem reunir essas condições com maior facilidade. Pequenos e médios municípios, por outro lado, operam com estruturas reduzidas, equipes sobrecarregadas e recursos limitados.

A limitação financeira explica apenas parte desse cenário. O desconhecimento também representa uma barreira importante. Muitos gestores municipais relacionam a internacionalização somente ao turismo, à atração de investimentos ou à captação de recursos. Essa visão reduz as possibilidades de atuação externa e dificulta a construção de estratégias voltadas à cooperação técnica, ao intercâmbio de políticas públicas e à aprendizagem entre governos locais. Estudos sobre municípios paraibanos mostram que a falta de informação, de capacidade técnica e de decisão política limita a atuação internacional de pequenas cidades (Froio, 2020).

A Agenda 2030 cria uma possibilidade diferente. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável oferecem uma linguagem comum para governos locais de diferentes países. Municípios com portes, histórias e capacidades distintas passam a trabalhar com referências semelhantes, como metas, indicadores, participação social, planejamento e monitoramento de políticas públicas.

Os Laboratórios ODS podem transformar essa linguagem comum em um espaço de articulação. Eles funcionam como ambientes locais de diálogo, experimentação, produção de conhecimento e participação social. Também podem aproximar cidades que enfrentam desafios semelhantes ou que desenvolvem metodologias relacionadas à implementação dos ODS.

Essa aproximação não exige, necessariamente, uma secretaria municipal de relações internacionais. O município pode iniciar uma relação internacional a partir de uma agenda que já integra suas responsabilidades locais. A sustentabilidade, a educação, a saúde, a redução das desigualdades, o planejamento urbano e a participação social são temas municipais e, ao mesmo tempo, componentes de uma agenda internacional.

Os Laboratórios ODS podem atuar, portanto, como estruturas leves de internacionalização. Eles oferecem um tema concreto, uma metodologia compartilhada e possíveis interlocutores. Também reduzem a dificuldade inicial de identificar com quem dialogar e sobre qual assunto construir uma cooperação.

Essa dinâmica se aproxima do conceito de diplomacia das cidades. Perpétuo define essa atuação a partir das relações estabelecidas por governos locais com atores internacionais para representar seus interesses e desenvolver ações próprias. A diplomacia das cidades pode envolver cooperação internacional, representação institucional, captação de recursos, promoção territorial, cultura de paz e troca de conhecimentos (Perpétuo, 2010).

O caso de Ipanema, em Minas Gerais, ajuda a visualizar esse processo. Durante a elaboração de seu Relatório Voluntário Local, o município estabeleceu contato com experiências ligadas aos Laboratórios ODS de Mafra e Almada, em Portugal. A aproximação criou um canal de diálogo entre atores locais de cidades brasileiras e portuguesas.

A experiência ainda é recente e possui baixo grau de formalização. Mesmo assim, ela mostra como uma agenda global pode gerar relações diretas entre cidades. Ipanema não iniciou esse movimento por meio de uma missão empresarial, de um acordo comercial ou da criação de uma secretaria internacional. O contato surgiu durante o processo de localização dos ODS e de organização das políticas municipais no Relatório Voluntário Local.

O exemplo interessa principalmente pelo que revela sobre o fenômeno. Um município sem tradição consolidada de atuação internacional encontrou um canal de comunicação com cidades de outro país por meio da Agenda 2030. Os ODS ofereceram o tema comum. O relatório organizou e apresentou a experiência local. Os laboratórios aproximaram pessoas e instituições.

O Relatório Voluntário Local também possui um papel relevante nesse processo. Ele organiza políticas, indicadores, prioridades e desafios em uma estrutura reconhecida internacionalmente. O documento torna o município mais compreensível para atores externos e facilita a identificação de pontos de interesse comum. O relatório pode funcionar como instrumento de visibilidade e apresentação internacional da cidade.

O Laboratório ODS amplia essa função ao transformar informação em interação. O relatório registra e comunica. O laboratório reúne atores, promove intercâmbios e cria condições para a continuidade do diálogo. Assim, o processo de localização dos ODS pode ultrapassar o planejamento interno e gerar redes de cooperação entre territórios.

Essas relações também podem envolver atores além da prefeitura. Servidores, escolas, organizações da sociedade civil, pesquisadores, empresas e lideranças comunitárias podem participar das atividades e dos intercâmbios. A internacionalização passa a alcançar o território e seus atores, em vez de permanecer restrita ao gabinete do prefeito ou a uma área administrativa.

Esse formato é especialmente relevante para pequenos municípios. A cidade não precisa reproduzir, em escala reduzida, o modelo diplomático de uma metrópole. Pode construir uma atuação internacional compatível com sua capacidade, concentrada em temas específicos e vinculada a problemas concretos da gestão local.

Os Laboratórios ODS também podem favorecer relações horizontais. A cooperação não precisa seguir uma lógica em que uma cidade desenvolvida transfere conhecimento para outra considerada menos preparada. Cada território possui práticas, experiências e soluções próprias. Uma pequena cidade brasileira pode aprender com uma cidade europeia e, ao mesmo tempo, compartilhar metodologias desenvolvidas em contextos de baixa capacidade institucional, participação comunitária ou gestão de políticas em territórios menores.

Essa possibilidade não elimina os desafios. Relações internacionais locais podem depender excessivamente de lideranças específicas, servidores temporários ou instituições externas. Mudanças de governo, rotatividade das equipes e ausência de orçamento podem interromper o processo. Contatos iniciais também podem permanecer no campo simbólico e não resultar em projetos concretos.

A informalidade pode facilitar o início da relação, mas também pode dificultar sua continuidade. Por isso, o avanço da cooperação exige algum grau de registro, definição de responsabilidades, documentação das atividades e incorporação do tema ao planejamento municipal.

Os Laboratórios ODS não garantem a internacionalização de um município. Eles criam condições favoráveis para que ela aconteça. Seu principal potencial está na redução das barreiras de entrada, pois oferecem uma agenda compartilhada, uma linguagem reconhecida internacionalmente e uma rede possível de interlocutores.

A internacionalização de pequenas e médias cidades pode seguir um caminho diferente daquele adotado pelas grandes metrópoles. Em vez de começar pela criação de estruturas complexas, ela pode surgir de agendas temáticas, relações entre técnicos, intercâmbio de experiências e cooperação em políticas públicas.

Nesse contexto, os Laboratórios ODS podem ser compreendidos como infraestruturas locais de diplomacia das cidades. Eles conectam problemas locais a uma agenda global e aproximam territórios que dificilmente se encontrariam por outros meios. O caso de Ipanema é uma manifestação inicial desse processo. Sua importância está menos na consolidação de uma experiência específica e mais na possibilidade que revela para milhares de pequenos e médios municípios.

BALBIM, Renato. International city’s networks and diplomacy. Brasília: Ipea, 2021. (Discussion Paper, n. 257). Disponível em: http://dx.doi.org/10.38116/dp257. Acesso em: 29 jul. 2026.

FROIO, Liliana Ramalho. Internacionalização de cidades pequenas. Relações Exteriores, 14 ago. 2020. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/internacionalizacao-de-cidades-pequenas/. Acesso em: 29 jul. 2026.

PERPÉTUO, Rodrigo de Oliveira. A cidade além da nação: a institucionalização do processo de internacionalização de Belo Horizonte. 2010. 147 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) — Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

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